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São Francisco Xavier volta a reunir cinco espécies de primatas

27 de out.
4 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Nova etapa do Projeto Primus envolve, além da adaptação dos animais na floresta, ações de educação ambiental, ciência cidadã e engajamento da comunidade


Foto: Layla Motta
Foto: Layla Motta

Depois de um período de cuidados em um centro técnico em São Paulo, o bugio-ruivo Encantado retornou a São Francisco Xavier acompanhado de três fêmeas. O retorno marca um momento histórico para o distrito: o território volta a reunir as cinco espécies de primatas que simbolizam a riqueza de sua fauna — muriquis, sauás, macacos-prego, bugios e saguis-caveirinha.


Para a etapa de adaptação à floresta, os animais foram recebidos em um recinto projetado especialmente para o processo de pareamento e aclimatação, favorecendo a adaptação às temperaturas, aos sons e às dinâmicas da floresta local. Com módulos interconectados por divisórias de alambrado, o espaço permitiu que Encantado e as fêmeas Ruivona, Claudinha e Marilene (batizada em homenagem à pesquisadora que realizou o primeiro censo de muriquis na região) pudessem se ver, se cheirar e estabelecer vínculos de forma segura, sob acompanhamento veterinário e monitoramento diário do pesquisador e morador local Allan Souza.


As informações coletadas alimentam um comitê técnico-científico e embasam cada etapa do projeto, como a definição do momento certo para conectar os módulos e aproximar os animais. Uma das maiores surpresas do processo foi perceber que, mesmo após anos sozinho e sem referências de convivência com outros de sua espécie, Encantado, que tem cerca de sete anos, formou vínculo rápido com o grupo.


Foto: Layla Motta
Foto: Layla Motta

Atualmente, o grupo passa por processos contínuos de coesão, abrindo caminho para que a comunidade acompanhe, em breve, notícias dos animais em vida livre e o monitoramento pleno pela floresta. Com cronograma previsto até junho de 2027, o projeto simboliza a esperança de que o conhecido som dos bugios voltar a ecoar pela Serra da Mantiqueira.


"Mais do que registrar uma história de conservação, o projeto busca criar pontes e responsabilidade compartilhada com o território. Queremos que os moradores, os visitantes, a comunidade escolar se sintam parte da proteção desses animais. O verdadeiro impacto acontece quando a comunidade assume o protagonismo", destaca a cineasta e produtora Luciana Bobadilha, produtora audiovisual.


Saúde, vacinação e a desmitificação de um estigma

A epidemia de febre amarela silvestre, ocorrida entre 2017 e 2018, dizimou cerca de 92% da população de bugios no Sudeste. A tragédia ocorreu não apenas pela gravidade do vírus, mas também pelo abate de animais decorrente do medo gerado pela desinformação.


Por isso, os integrantes da iniciativa reforçam um ponto fundamental de serviço público: apesar de muito sensíveis à doença, os bugios não transmitem febre amarela para humanos. Além disso, todos os indivíduos trazidos para a reintrodução foram previamente vacinados, garantindo total segurança para a fauna e para o território.


Foto: Layla Motta
Foto: Layla Motta

Educação ambiental, ciência cidadã e tecnologia no território

O Projeto Primus tornou-se o propulsor de uma série de ações, e articula cinema, educação ambiental, ciência e preservação socioambiental. Na frente educativa, diversas atividades de formação vêm sendo realizadas no distrito:


  • Escola Mercedes Rachid: Formação com duas turmas, onde as crianças resgataram memórias familiares e fizeram perguntas sobre a rotina dos primatas.

  • Entorno do local de soltura: Encontro com cerca de 12 moradores e caseiros na Pousada Rosa e o Rei e na sede da fazenda do projeto.

  • Mobilização comunitária: Estande da iniciativa com primatas em tamanho real na Festa Junina do distrito e participação em um debate de sensibilização na Escola Pássaro, durante a Semana do Meio Ambiente.


A proposta é engajar a população no monitoramento, por meio da ciência cidadã. A equipe fará o acompanhamento de campo com camera traps, drones termais e busca ativa na mata. Também foi estabelecida uma parceria com o aplicativo Bugio Face ID. A partir de um banco de imagens dos indivíduos, moradores e frequentadores de SFX poderão fotografar os bugios avistados e enviar para a plataforma, ajudando a identificar qual deles está em cada ponto da floresta.


Uma visão de longo prazo para os próximos 100 anos

Recompor o que o impacto humano e as epidemias desestruturaram exige paciência e visão de futuro. Este primeiro bando representa o início de um esforço de restauração populacional de longo prazo. Para que São Francisco Xavier volte a ter, nas próximas décadas, a mesma densidade populacional de bugios que possuía antes do surto, serão necessários novos ciclos de reintrodução. 


Como exemplo, um cálculo populacional realizado na Ilha do Cardoso apontou que, para restabelecer a população que existia antes da febre amarela em um horizonte de 100 anos, seria necessário introduzir cerca de 40 indivíduos de imediato. Isso demonstra a dimensão do desafio na Serra da Mantiqueira.


“Em São Francisco Xavier, a floresta guarda uma complexa tapeçaria de vida. Quando se olha para uma única árvore da Mata Atlântica, percebe-se uma infinidade de plantas, trepadeiras e interconexões sutis que sustentam o equilíbrio do ecossistema”, reflete o cineasta Fábio Nascimento, documentarista. “Contudo, a natureza funciona como um tecido delicado: se um fio é puxado ou rompido, toda a estrutura sente o impacto", conclui.


Pioneira no estado, a iniciativa demonstra que a regeneração socioambiental exige a soma de múltiplos esforços. Como instituição requerente, o Regenera atua na gestão territorial, articulação institucional e busca de recursos e parcerias para viabilizar as ações no distrito.


A ação é realizada por uma ampla rede colaborativa que reúne a Fundação Florestal (responsável técnica), a Prefeitura Municipal de São José dos Campos (no Conselho Gestor e por meio do Programa Primatas / FUMCAM), o ICMBio, o MIB, a SEMIL/SP, o Projeto Biota Coexiste/USP, o Projeto Jacutinga / SAVE Brasil e parceiros da iniciativa privada. 


 
 
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